Se pudesse ser um animal, gostaria de ser uma gata. Gostava do andar felino; da sensualidade associada a palavra; da maneira como os gatos se achegam quando querem carinho, vão embora quando assim desejam e não, não se aproximam tão facilmente. Mas a verdade é que se sentia uma cachorrinha, sem a conotação sexual do termo. Do tipo que segue os passantes que olham e acariciam sua cabeça. Que pula nas pessoas, sem ter noção de sua própria força e tamanho (e sujeira das patas). Que faz xixi quando alguém chega em casa, em mais uma inconveniente e pouco sutil demonstração de afeto. Mas, principalmente, daquela que espera de ouvidos atentos o chamado de seu dono, que a pôs para fora. De novo.

1 comment Dezembro 13, 2009

“…é tanta coisa que eu não sei”

Sabe que há algum tempo ganhou alguns machucados. Não sabe dizer se foi em um acidente, uma briga, se são produtos de uma doença ou resultado de auto-mutilação. Talvez um pouco de tudo. Sabe que agora se sente melhor. Não há hematomas visíveis. Há cicatrizes, algumas dores, um certo cansaço. Lembra-se sempre do que aprendeu em uma palestra sobre queimaduras: a dor persiste até um ano após a cicatrização. Não sabe dizer a extensão real dos danos e teme que alguns sejam permanentes. Brinca com facas e se surpreende quando corta o dedo. Suspeita que seus machucados tenham algo a ver com isso.

Add comment Dezembro 13, 2009

Ela não se alimentava direito desde a morte da filha, há dois anos. Não gostava mais de sair de casa e não queria, pela primeira vez, celebrar o Natal. “Perdi o gosto”. Você me perguntou quanto tempo seria normal vivenciar o luto. Eu poderia falar muito sobre isso, mas você queria apenas uma resposta rápida e compatível com a esperada. Falei que existem discordâncias, mas estudos falam de um período de dois anos. “Não. A partir de seis meses, se a pessoa ainda apresenta tristeza, nós chamamos de luto patológico”. A redução me assustou. De que tristeza estamos falando? E… “normal” e “patológico”? Mas não eram perguntas cabíveis. Ali eram necessários limites e sinais e sintomas e sentimentos e pessoas que se enquadrassem. Mas, só uma pergunta, doutor: se depois de cinco anos ainda dói e aperta e há choro e saudade e tristeza, a gente faz o quê?

Add comment Novembro 1, 2009

Não se sabe há quanto tempo vivia no escuro, portas e janelas cerradas. Dormia um sono desconfortável. Seu corpo doía na cama; sentia fraqueza em pé. Não se sabe quando amanheceu em sua casa. Mas percebeu e se espantou com a claridade. Arrumou a cama, suas roupas, seu quarto. Arrumou-se como pôde. Sentia calor. Vibrava. Admirava a luz confusamente, agora que saíra da sombra. Vibrava. Abriu as janelas, despiu-se e, correndo, foi dançar no jardim, debaixo de um céu nublado. Seu corpo carregava um brilho que não era seu. Parou de dançar, mas seu interior ainda era todo agitação. Lavou-se com água e lágrimas. Não sabe o que fazer com o que a luz tira das sombras.

Add comment Novembro 1, 2009

Sobre Reparação

Acabou.

Acabou e agora eu estou aqui, na minha cama, sem você.

Eu sabia como me sentiria perdida quando isso acabasse, porque era inevitável que acabasse. Foi tudo muito rápido e muito intenso.

Enquanto estivemos juntos, eu procurava você a todo instante. Não foi fácil ser responsável e fazer o que era exigido de mim e, ao mesmo tempo, incompatível com estar com você. E você estava sempre disponível para estar comigo quando eu o procurasse.

Eu poderia voltar e tentar começar tudo de novo, mas seria exatamente a mesma história. Sei o que encontraria. Haveria novos pensamentos, sim; novos entendimentos, com certeza. Eu poderia voltar para tentar entender, para estar próxima de você novamente.  Mas não seria a mesma coisa. O encantamento que existiu estaria lá, mas mais como uma lembrança do que como encantamento em si, e pode ser ruim lembrar-se do que foi sentido, mas sem sentir, nas mesmas circunstâncias.

Agora eu o conheço. Eu o conheço e sinto muito sua falta. Não tenho mais para onde ir, agora que o mundo que construí ao seu redor acabou. Já há uma história completa, o que quer que seja acrescentado de compreensão não mudará o fato de que, na verdade, acabou e eu já sei como tudo acontece. Não haverá novas palavras, você só repete o que já foi dito. E ainda assim eu quero voltar, eu quero ver tudo acontecendo novamente, eu quero o mundo de fantasia que só existia enquanto eu estava com você. Sei que, se voltasse, seria bom. Você continuaria sendo fantástico. Mas acabaria tudo igual. É provável que agora eu fosse mais comedida, não me entregasse tanto. As coisas aconteceriam mais lentamente, mas o caminho percorrido seria exatamente o mesmo. Eu sei disso e não sei o que você sabe, mas é você que contém toda a trama.

E agora? Agora eu sentirei saudades, e seguirei com a certeza de que você mudou algo em mim. Quanto a você, farei o que for necessário para que outras pessoas o conheçam e, espero eu, envolvam-se com você como eu me envolvi, para que depois possamos conversar sobre você, se as outras assim o desejarem. Mas uma coisa é certa e me conforta: apesar do fim, você será meu até que eu decida o contrário; até que eu decida que você está livre para viver com outro alguém, ou até que eu o mande de volta para um lugar como aquele de onde você veio. Além dessas possibilidades, só as fatalidades podem nos separar: um roubo, um desaparecimento, um desastre natural. Você é meu e isso significa que tenho livre e irrestrito acesso a você, mesmo que o divida com outras pessoas, até o dia em que não ache mais que você fica bem na minha estante. Mas não consigo imaginar que isso aconteça tão cedo, porque você foi realmente muito bom e está, com certeza, na minha lista de livros favoritos.

(Thank you, Mr. McEwan)

Add comment Novembro 1, 2009

Praia

Sentada em seu quarto, sentiu cheiro de chuva. Diferente dos anteriores, aquele era um dia quente e seco. Mas sentiu cheiro de terra molhada. Fechou os olhos e pensou que gostaria de estar em outro lugar. Decidiu dormir, para não se perder da sensação boa e do sonho que se iniciava .

(O melhor é que, apesar de distante, o lugar adorado era real. E lá também chovia).

Add comment Agosto 6, 2009

Em terra firme

- O que você está fazendo?

- Respirando.

- Precisa desse exagero todo? Respira direito.

- Eu preciso respirar. Vou me afogar se eu não respirar.

(Continuou inspirando com força, puxando o ar, enchendo os pulmões. Estava seca. Por fora. Sentia que por dentro era só água. Era um mar.  Mar bravo. Achava que ia soluçar, sabia que eram ondas. Era uma tormenta. Preferia quando tudo rebentava e molhava seu rosto, o travesseiro, camisas amigas. Água corrente, de passagem. Melhor do aquele mar preso que só ela podia ouvir e contra o qual só podia respirar).

Add comment Agosto 4, 2009

Ela disse que não é bom olhar para a frente agora. Não é bom porque agora nós veremos tudo vazio. Então é melhor olhar bem para perto.  Mas, de cabeça baixa, só vemos o chão. Olhando para o chão você vê um par de pés ali do lado. Um par de pés, debaixo de um par de pernas, com uma mão estendida na altura da sua. As mãos se dão bem. Você levanta a cabeça e é até estranho. A claridade do sol é tanta, você nem tinha notado. O pescoço dói, acostumado que estava a pender. De repente você está sorrindo. Com alguma sorte. Olha em volta e suspira. Respira. Sente esperança e consegue até pensar que, talvez, um canteiro de flores ficasse bonito ali na frente.

Add comment Agosto 3, 2009

Paris

Pela programação, seria o pior dia da semana. Quatro compromissos em partes distintas da cidade.

Com chuva.

Três deles não aconteceram, sem aviso prévio. Com o primeiro tempo livre, li revistas. Com o segundo, dormi. Com o terceiro, fui ao cinema.

E a chuva? Virei uma pinta molhada, mais pelo tempo de exposição do que pela intensidade do aguaceiro. Isso não me incomodou. Quem me incomoda são as pessoas com seus guarda-chuvas na calçada da Teodoro. Mas enfim.

Quase o dia todo “deu errado”, mas o dia inteiro deu certo.

Terminou com Paris. E Paris tem “Sway” e tantas outras boas. Tem um bailarino doente, e a Juliette Binoche que eu quero ver dançando. Tem uma moça linda, um psicanalista e conversas sobre a morte e o morrer. Tem mil personagens com suas histórias que se cruzam, ou quase.

Paris tem tangerinas.

1 comment Agosto 1, 2009


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